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Entrevistas, Gaspar Ramos, Jorge Coroado, Sousa Cintra

Entrevista a Jorge Coroado (Correio Sport) – 2006

Recordar uma entrevista do antigo árbitro Jorge Coroado ao jornal Correio da Manhã, mais especificamente à secção de desporto Correio Sport.

Nesta entrevista Jorge Coroado revela que os árbitros temiam Pinto da Costa e Valentim Loureiro, assim como dirigentes do Sporting e Benfica, embora não da mesma forma. No entanto, Jorge Coroado é claro ao afirmar que as maiores pressões que sofreu foi sempre de dirigentes do SL Benfica, nomeadamente da parte de Luís Filipe Vieira e de Gaspar Ramos.

Relativamente a este último dirigente Jorge Coroado revela mesmo ter sido ameaçado por ele no final de um jogo com o Torrense no Estádio da Luz. Gaspar Ramos ao berros disse-lhe que ia acabar com a sua carreira. Não acabou mas segundo o próprio nunca atingiu a patamar que poderia ter atingido.

Sobre corrupção afirma nunca ter sido alvo de tal prática.

Relativamente a presentes recebeu um apito dourado de Sousa Cintra, mais de 50 relógios de diversos dirigentes dos mais variados clubes e ainda uma porcelana cara do antigo presidente do Beira-Mar, Silva Vieira, que recusou.

Correio SportDepois de mais de 25 anos na arbitragem, o que soube pelo ‘Apito Dourado’ que não conhecesse já?

Jorge Coroado – De tudo o que saiu até agora, nada foi novidade. São coisas antigas e práticas velhas. A única matéria menos conhecida era a existência de uma relação tão directa entre autarquias e futebol.

Árbitros arguidos devem continuar a arbitrar?

– Nem árbitros suspeitos devem continuar a arbitrar nem dirigentes suspeitos devem continuar a dirigir. Mas nós em Portugal damos muito valor aos vigaristas.

Que conselho dá a Maria José Morgado?

Que esteja atenta, que evite chamuscar-se neste processo.

Ao longo destes dois anos colaborou no processo…

Como outros, fui nomeado perito pelo Ministério Público.

Conheceu casos concretos de corrupção na arbitragem?

Directamente não. O que sempre notei foi uma enorme subserviência dos árbitros perante pessoas a quem reconheciam autoridade, para progredirem na carreira.

Esse medo está relacionado com as classificações…

Exactamente. A postura subserviente partia do próprio árbitro que na hora de decidir um lance encolhia–se. Vou dar-lhe um exemplo: há uns anos, num FC Porto-Benfica, aos 20 minutos de jogo, perante uma falta gravíssima do João Pinto, o árbitro fez de conta que nada viu. Pouco depois, encontro-o: “Olha lá porque é que não mostraste o vermelho?” Diz-me ele: “Expulsar o capitão do FC Porto, aos 20 minutos, nas Antas?! Deves estar maluco”. Este medo sempre me incomodou.

Medo de Pinto da Costa e de Valentim Loureiro…

Sem dúvida. Esses eram as principais figuras, aquelas a quem se reconhecia maior poder pelos cargos que ocupavam e os árbitros temiam-nos. O Benfica e o Sporting também tinham o seu peso, mas não como os outros dois casos.

Tentaram comprá-lo?

Não. Mas quando discordei publicamente da integração da arbitragem na Liga de Clubes, o director executivo, José Guilherme Aguiar, teve uma conversa comigo, muito curiosa, no seu gabinete, a 2 de Dezembro de 1996, em que contou o seguinte: quando era vice-presidente do FC Porto disse um dia ao Paulo Futre que ou cumpria as regras ou não podia jogar naquele clube. “E olhe que o Futre era a estrela da companhia”, rematou. Percebi o recado: ou me calava ou me punham à margem.

Foi posto à margem?

Não. Calei-me. E no ano seguinte até fui o primeiro.

E pressões em jogos?

Citei numa pessoa do FC Porto, conto agora um caso com alguém ligado ao Benfica. Em 87 ou 88, Porfírio Alves, do Conselho de Arbitragem, disse-me que na parte final dos campeonatos certos clubes não me queriam a arbitrar nos jogos em casa. Foi claro que se tratou de uma tentativa de me explicar que se fosse mais flexível poderia apitar mais jogos.

Voltou a ceder?

Durante uns tempos procurei rectificar um ou outro comportamento mas não consegui. Não estava a ser eu e voltei ao meu caminho.

Algum dia um colega lhe confessou um suborno?

Não. Os meus colegas não morriam de amores por mim e eu não morria de amores por eles. Um dia disseram-me que um dos meus fiscais-de-linha tinha recebido uns bens. Não sei se foi verdade ou não. Mas comecei a notar-lhe um comportamento estranho.

O que lhe fez?

Corri com ele da minha equipa.

Viu árbitros a enriquecer?

O que sempre vi foi uma enorme vontade de agradar ao poder. Nos anos 80 contava-se a história de um árbitro que se afastou da arbitragem após o pagamento de uma verba do conselho de arbitragem.

Ficou surpreendido com o envolvimento de Pinto de Sousa no ‘Apito Dourado’?

Pinto de Sousa é um homem afável, pouco disponível para confrontos, dado a consensos. Tendo em conta este perfil, acredito que é muito capaz de se ter deixado envolver em situações pelas quais está indiciado. Mas não o vejo a fazê-lo para tirar proveitos pessoais, mas sim para não se aborrecer.

Conhece árbitros que vivam acima das suas possibilidades?

Há situações que sempre estranhei, mas há quem faça milagres com o dinheiro. Vi quem ganhasse menos do que eu ter carros muito melhores do que o meu, viajar muito mais do que eu, frequentar restaurantes acima da média. Mas não vou fazer juízos.

Alguma vez entrou em casa de um dirigente?

Duas vezes. Na de Adriano Pinto, onde almocei e onde não se falou por um segundo de futebol. E, a convite do sr. Pinto de Sousa, acompanhado por mais dois árbitros, na de Valentim Loureiro. Foi após um Boavista-Benfica, no final da década de oitenta, um jogo arbitrado por Carlos Valente, que o Boavista perdeu. Foi muito constrangedor. Não gostei do comportamento de Valentim Loureiro e muito menos da maneira como ele tratou as pessoas que estavam ao seu serviço, os empregados da casa.

Nunca esteve em casa de Pinto da Costa?

Nunca. Nem faço ideia onde mora.

Como eram as vossas relações?

Em 1993, no dia 28 de Dezembro, num Boavista-FC Porto, expulsei 3 jogadores do FC Porto e dois do Boavista e ainda ficou por marcar um penálti contra o FC Porto que, por estar de costas, não vi. No final, o Pinto da Costa entra na cabine dos árbitros de forma muito agreste que não me agradou. Tive que lhe lembrar que aquela era a minha cabine e, portanto, o melhor que ele tinha a fazer era sair.

Como é que ele reagiu?

Pinto da Costa reconhece quem o enfrenta.

Leu o livro de Carolina?

Não conheço a senhora nem privei com ela. Se se tratasse de um homem diria que estava ali um corno atraiçoado. Como é uma mulher, trata-se do testemunho de um coração traído.

Ofereceram-lhe serviços de prostitutas?

Na Roménia, foi-me oferecida a companhia de uma senhora, lindíssima, que não era prostituta mas que estava obrigada a fazê-lo sob pena de despedirem o marido. Foi uma situação terrível e degradante. Mas em Portugal também não era nem é uma novidade.

Foi ameaçado?

Fui, no Estádio da Luz, em 1991, no final de um Benfica-Torreense, pelo sr. Gaspar Ramos. Em 1995 o mesmo dirigente disse aos berros que iria fazer de tudo para acabar com a minha carreira.

De que clube recebeu mais pressões?

Do Benfica e dos seus dirigentes. Inquestionavelmente. Estou convicto de que se mais carreira não tive foi por influência de gente do Benfica. De Gaspar Ramos a Luís Filipe Vieira, que vetou o meu nome, em 2002, para vice-presidente do Conselho de Arbitragem.

Mas fez uma carreira longa.

Só por duas vezes fui o melhor árbitro. Quando confrontei Pinto de Sousa, ele disse que a Associação do Porto dava cabo dele se, em dois anos consecutivos, o primeiro da lista fosse um árbitro de Lisboa.

Algum dia duvidou das suas classificações?

No ano em que fiquei em 22.º lugar achei estranho.

Vítor Pereira, como presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, pode melhorar o sector?

Se não fizer o que sempre fez, ou seja, a permanente procura de distinções pessoais.

Sempre foram rivais. Falam-se?

Institucionalmente cumprimento toda a gente. Como também faço festas aos animais.

Qual foi o presente mais caro que já recebeu de um dirigente?

Um serviço de porcelana da Vista Alegre, que o então presidente do Beira-Mar, Silva Vieira, mandou entregar em casa de minha mãe. Pedi-lhe que fosse levantar o embrulho porque não o queria e comuniquei o caso ao Conselho de Arbitragem. A notícia saiu num jornal, Silva Vieira resolveu insultar-me e foi responder a Tribunal. Ao fim de dez anos foi condenado e indemnizou-me. Com esse dinheiro e um bocadinho mais comprei um carro, um Citroën C 3.

Tem apitos dourados?

Seis. Um que recebi do Sporting, no tempo de Sousa Cintra, e os outros foram-me dados por jornais.

E relógios?

Cerca de 50 relógios que me foram oferecidos pelos clubes, dos mais variados valores. A minha regra para aceitar estes presentes foi sempre simples: apenas aceitava ofertas que eu pudesse comprar e só as recebia depois dos jogos. Porque muitos dirigentes apareciam antes dos jogos e no final, se a equipa perdia, esqueciam-se.

Havia quem aceitasse ou oferecesse carros?

Havia quem os comprasse com muitas facilidades de pagamento.

in Correio Sport via Relvado

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2 thoughts on “Entrevista a Jorge Coroado (Correio Sport) – 2006

  1. Árbitros arguidos devem continuar a arbitrar?

    – Nem árbitros suspeitos devem continuar a arbitrar nem dirigentes suspeitos devem continuar a dirigir. Mas nós em Portugal damos muito valor aos vigaristas.

    DEVERIAS SER HONESTO E DIZER QUE OS DE CEDOFEITA DEVERIA SER IRRADIADOS DO FUTEBOL ..

    Posted by carolina | 6 de October de 2014, 21:54

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  1. Pingback: Anonymous - 7 de October de 2015

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